Um AMOR chamado ROMA

Sempre me perguntam como vim parar na Itália. Por que escolhi Roma. Por que deixei o Brasil. Por que não Londres, Nova York, Paris? Por que não fiquei em São Paulo e pronto?

Um ano e pouco atrás eu estive em Roma com a minha mãe. Sentada em uma mesinha na rua – não digo calçada porque ela mal existe por aqui – eu disse:

–  Eu vou morar aqui.

Ela riu.

– É sério. Eu quero morar aqui. Eu VOU morar aqui.

Voltei para o Brasil com a idéia fixa na cabeça. O que faria em Roma sem falar italiano? Sem conhecer ninguém? Não sou mais criança para vir a Itália com a desculpa de aprender italiano. Tinha emprego e quase 30 anos nas costas. Não dava para abandonar tudo naquele momento sem um propósito.

Bom, o primeiro problema tinha que ser resolvido, ou, ao menos, começar a ser solucionado. Quinze dias depois que pousei no Brasil, iniciei as aulas de italiano. Meu professor genovês easy going me ajudou a ter o primeiro contato com a língua de verdade e não ter medo de errar. “O que importa é se expressar”, ele dizia.

Sentei com meu chefe no escritório de advocacia e dividi meus sonhos, meus planos. Mostrei na internet que havia um mestrado em Roma que poderia ser interessante. E não é que ele também achou interessante?

Por incrível que pareça, em 6 meses eu estava morando em Roma. Meus amigos, meus pais, meus irmãos…eu sentia que ninguém acreditava que eu viria realmente. Cinco dias antes de embarcar meu pai me perguntou durante o almoço:

– Mas então você vai mesmo?

Chorei pela saudade que já sabia que sentiria. E disse:

– Eu vou. E não duvidem nunca mais de mim quando eu disser que farei algo.

E devo dizer: eles não duvidam mais mesmo.

A vida me ajudou, meu empenho também, e eu me lembrei como é ter um desafio, um sonho, uma paixão, e não medir esforços para alcançá-los. Fui aceita no mestrado, aluguei um apartamento, e a partir daí era oficial: eu vivo aqui.

Em Roma eu me sinto em casa. Sempre me senti. E foi por isso que fiz minha mãe rir naquele restaurantezinho quando expressei pela primeira vez esta vontade, dizendo que aqui poderia muito bem ser a minha casa. E eu nunca senti isso em nenhuma outra cidade no mundo que não fosse a minha própria.

Caminhando olhando pelo chão de quadradinhos sanpietrini, prestando atenção para não tropeçar em toda a sua irregularidade, de repente percebo que é ela que faz o seu charme. Levanto a cabeça e vejo que é assim tudo à minha volta. Os prédios todos pintados de cores diversas – mas descascados. A fonte que jorra água para beber – mas que inunda a rua. As mesinhas do lado de fora com toalhas xadrez tão charmosas – mas todas sempre tortas e bambas por conta do piso irregular. As janelas cheias de florzinhas – e o varal de roupas estendido para fora. E, claro, o impressionante legado do Império Romano – em ruínas.

Foto: magari blu

A irregularidade de Roma é o que a faz mais especial que as outras cidades do mundo. Porque é tudo lindo, encantador, colorido, e surpreendente em cada detalhe. Não funciona como outras cidades por aí, mas se funcionasse não seria tão charmosa assim. É a bagunça mais fascinante que eu já vi. Enche os olhos. Eu não me canso de apreciar Roma.

A cidade é cheia de vida o tempo todo, inclusive com as suas luzes amareladas à noite iluminando junto com a lua o vai e vem de gente pelas ruas. Estranha-se quando tem silêncio em Roma. E o silêncio, por incrível que pareça, não alivia. Dá saudade.

Os sons se misturam entre os motores das vespinhas, as vozes altas dos italianos, as torcidas de futebol e os músicos com suas sanfonas e guitarras. Aos sábados tomo café da manhã na minha sala escutando “Fly me to the moon” tocada por um velhinho lá embaixo, na porta da minha casa.

E a língua italiana também é realmente música para os ouvidos e é fantástico perceber como se enche a boca para pronunciar cada palavra tanto quanto para cada garfada de um spaghetti sensacional. Não é à toa que as canções italianas são tão lindas e românticas e que nos dá tanto prazer aprender este idioma.

Eu tenho muita sorte de viver em Roma e sempre entro em uma das centenas de igrejas aqui para agradecer esta oportunidade. É a minha cidade do coração, que até blog virou, porque são tantas as experiências e descobertas todos os dias que não faz sentido guardar só para mim.

“O importante é se expressar”, já dizia meu professor no Brasil, não é? E eu só fui entender a fundo esta frase depois que me mudei. Para viver na Itália se deve se expressar com gestos, com sons, com caras, bocas, gostos e música. E é assim que vivo e mergulho todos os dias nos milhares de anos de História e fascínio que fazem dessa cidade… Realmente eterna.

A homenagem do cantor Jovanotti: “Ora Roma”