Trekking até o mosteiro Tiger’s Nest em Paro, no Butão

Na chegada à base da montanha onde está localizado o mosteiro Tiger’s Nest vans e mais vans se aglomeram. Descem dos carros turmas de viajantes e curiosos, que têm em comum – além do cajado na mão – a determinação de serem bem-sucedidos no trekking e de ver de perto os templos budistas construídos em cavernas a 3.120 metros de altitude.

Partida para o trekking
Foto: Ana Maria Junqueira

É inverno no Butão e em Paro as temperaturas quase beiram os graus negativos. O início da caminhada é gelado, portanto luvas, gorro e um casaco fofinho são bem-vindos.

Vestida em camadas para o frio da trilha no inverno
Foto: Erik Sadao

É meu primeiro trekking em montanha e desde a noite anterior uma série de questões permeavam a minha cabeça. O receio da falta de oxigênio na altitude e do grau de dificuldade da subida eram minhas maiores preocupações. Se valeria a pena o esforço, ainda mais na estação mais fria do ano? Bem, quanto a isso não tinha dúvidas.

Alguns turistas escolhem subir até cerca da metade do caminho montados em mulas. Eu, particularmente, não aderi à ideia. Primeiro, porque gostaria de mergulhar de cabeça neste desafio, inclusive físico, e preferi fazer o trajeto todo a pé. E, em segundo lugar, porque, vendo a montanha de perto e as subidas que me aguardavam, não me pareceu justo fazer um bicho subir comigo em seu lombo.

Os primeiros aclives começam e aí logo agradeci por ter me vestido em camadas, pois, apesar do frio matinal, o corpo começa a esquentar e pede por roupas mais leves. É importante usar uma segunda pele ou camiseta de material dry fit ou térmico, não algodão, para que o suor não te deixe resfriado quando chegar ao mosteiro, pois lá percebi que o frio é uma constante. Uma mochila leve também é bem útil.

Montanha acima!
Foto: Marcelo Alabarce

Sabe aquele conselho básico de escalar no seu tempo, parando para descansar quando sentir necessidade, e beber bastante água? Funciona. Não se preocupe em tomar suplementos e nem em chegar ao topo com pressa. O caminho é belíssimo e cada pausa para recuperar o fôlego dá a chance de apreciar como a cidade de Paro vai ficando menor e o Tiger’s Nest, maior.

Ali está ele, cravado na rocha, o Tiger’s Nest
Foto: Ana Maria Junqueira

A metade do percurso é marcada pela cafeteria que serve chá, café e bolachinhas. A dica é aproveitar este pretexto para sentar-se um pouquinho, curtir a vista e descansar as pernas. A partir daqui não é possível continuar com a montaria, somente com seu próprio esforço físico.

As bandeirinhas de oração são bem comuns no Butão. Os budistas as estendem pelos campos e pelas cidades para que o vento espalhe seus melhores desejos a todos. O país, conhecido mundialmente por implementar o índice FIB – felicidade interna bruta-, entende que a felicidade é alcançada não individualmente, mas, sim, se toda a comunidade estiver feliz também. Por isso, explica-se a necessidade de se estender suas preces e pedidos a todo mundo. E as coloridas bandeiras são protagonistas de toda a subida até o mítico Tiger’s Nest.

Bandeirinhas de oração a caminho do Tiger’s Nest
Foto: Ana Maria Junqueira

No caminho, dei passagem para alguns, ultrapassei outros. A trilha tem que ser feita com guia, mas tem quem acabe sendo deixado para trás para não atrasar um grupo maior. Foi o caso de um senhor de 83 anos. Vindo de Washington, nos Estados Unidos, ele estava sempre ofegante e em busca de um local para se sentar. Apesar de ressentido com o grupo por tê-lo negligenciado, entendia que estava mais devagar que os demais – também, pudera, ele tem mais de 8 décadas de idade. “Estamos quase lá”, eu disse, na tentativa de incentivá-lo a não desistir.

Porém é este o grande segredo para conseguir finalizar o trekking. Seguir seu próprio passo e seu próprio tempo.

Trekking em direção ao Tiger’s Nest
Foto: Ana Maria Junqueira

A chegada ao Tiger’s Nest é de arrepiar. O guia começou a rezar em voz baixa bem antes de entrarmos no templo, quando ainda o avistava à distância. Soou como um mantra diante do cenário que tinha diante dos meus olhos.

Tiger’s Nest
Foto: Ana Maria Junqueira

Mais e mais bandeirinhas colorem o cenário e balançam estimuladas pelas fortes rajadas de vento dos mais de 3.000 metros de altitude.

O vento espalha…
Foto: Ana Maria Junqueira

Uma bela cachoeira despenca frente ao mosteiro, e um monte de neve repousava ali, que provavelmente caíra dias antes e começava a virar gelo diante dos raios fortes do sol do inverno butanês.

A cachoeira e a neve de janeiro
Foto: Ana Maria Junqueira

Mochilas, máquinas fotográficas e celulares são confiscados antes de se ingressar nos templos. Sapatos também ficam do lado de fora – mas, como estiva muito frio, o chinelinho felpudo do hotel foi perfeitamente aceito e diminuiu meu desconforto.

Na primeira caverna, toda enfeitada como templo budista, um monge vestido de cor de vinho fez sinal para que eu abaixasse a cabeça e olhasse ao chão, enquanto rezou e me abençoou sobre os cabelos. Ao erguer de novo meu corpo, me debulhei em lágrimas.

O senhor monge, recluso no alto do “ninho do tigre”, é um dos religiosos que cuidam desta pérola e que quase não descem à cidade. “De onde você é? Por que está chorando?”, ele perguntou, intrigado. Não se preocupe, senhor monge, são lágrimas de felicidade no país mais feliz do mundo!

Na próximo templo situado em outra cavidade, também devidamente adornado com altar, trono e oferendas, sentei-me em posição de lótus com as pernas cruzadas e os pés junto aos joelhos, fechei os olhos e deixei os pensamentos fluírem – uma meditação, uma oração, um agradecimento. Foi um dos momentos mais mágicos da incrível aventura no Butão, como se os sons fossem ficando mais distantes, o mundo em pausa lá fora. Até o senhor de 83 anos que chegou falando alto, talvez em comemoração ao seu grande feito (finalmente!), não me perturbou. A paz era aqui dentro, dentro do meu peito, da minha mente, dos meus olhos fechados.

A chegada ao mosteiro
Foto: Tashi Phuntsho

A realização de conseguir chegar ao Tiger’s Nest sem estar exaurida, com energia e curiosidade suficiente para tentar absorver o máximo possível desta joia do reino budista do Butão, foi uma grande conquista pessoal. O que encontrei lá, que a câmera não pôde fotografar, mas que as imagens não saem da minha mente, foi o prêmio pela fé, pelo empenho e pelas dores musculares que, inevitavelmente, vieram no dia seguinte.

O Butão tem um quê de inocência, de pureza, de ingenuidade que nunca tinha visto. É como olhar para uma criança e enxergar nela a esperança do futuro, a luz no túnel. O Butão é a infância do mundo, um país que parece ter parado no tempo e que tem a sinceridade e a perspicácia de um menino. Um menino que sorri com a alma e dá valor aos princípios mais nobres do homem que almeja ser.

Jovem monge butanês
Foto: Ana Maria Junqueira

A satisfação particular e espiritual que vivi nesta trilha logo ficaram claras como água: obrigada, povo butanês, por permitir que suas preces e pedidos chegassem em mim, carregados pelos sopros de ar entre os Himalaias!

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Ana Maria Junqueira é a idealizadora do blog Magari Blu e fundadora da premiada agência de viagens Magari Blu Viagens. Escreve sobre viagens, faz a curadoria de todo o conteúdo que você vê por aqui e organiza roteiros personalizados e reservas.