Stolpersteine: as “plaquinhas” da memória em Berlim

26/08/2016

Dicas de Berlim por Laura Ammann

Terminada a Segunda Guerra, a Alemanha levou alguns anos para começar a encarar o seu passado. Os principais julgamentos de ex-oficiais nazistas, por exemplo, só começaram a ser realizados no final da década de 1950. Em 1963, 22 guardas que trabalhavam no campo de Auschwitz foram réus de um importante julgamento em Frankfurt. Somente um ano antes, morria enforcado o oficial nazista responsável pela logística de deportação dos judeus aos diversos campos de extermínio: Adolf Eichmann. O seu julgamento, realizado em Israel em 1961 e tendo atraído atenção internacional, foi coberto também pela filósofa Hannah Arendt, o que a levou a formular o conceito de banalidade do mal, descrito em seu livro “Eichmann em Jerusalém”.

Como tudo tem o seu tempo, o passado alemão enfim foi encarado. Com a renovação das gerações e dos políticos, várias iniciativas propuseram resgatar a história e a memória. Hoje, em Berlim, encontram-se diversas delas, que vão desde o Jüdisches Museum – o museu judaico – até as Stolpersteine.

As Stolpersteine são um projeto do artista alemão Gunter Demnig, iniciado em 1992. Desde então, placas douradas são vistas com frequência nas calçadas não só berlinenses, mas também de outros 18 países europeus.

"Aqui morava Max Moishe Bütow, nascido em 1890, deportado ao gueto de Litzmannstadt, na cidade de Łódź na Polônia, assassinado em 7.3.1942" Foto: Laura Ammann

“Aqui morava Max Moishe Bütow, nascido em 1890,
deportado ao gueto de Litzmannstadt,
na cidade de Łódź na Polônia, assassinado em 7.3.1942″
Foto: Laura Ammann

Essas placas trazem o nome de pessoas deportadas, mortas ou – em casos menos numerosos – que sobreviveram às deportações aos campos de trabalho e extermínio durante os anos de guerra. Postas à frente dos prédios onde essas pessoas moravam ou trabalhavam, as Stolpersteine são um significativo memorial para aqueles que tiveram seu direito à vida – e ao rito da morte – negado. Avessas à lógica do memorial centralizado, as Stolpersteine são um lembrete constante aos passantes de Berlim e de outras cidades.

Diferentes pessoas, enviadas aos campos de Auschwitz, Teresienstadt ou aprisionadas pela Gestapo Foto: Laura Ammann

Diferentes pessoas, enviadas aos campos de Auschwitz, Teresienstadt ou aprisionadas pela Gestapo
Foto: Laura Ammann

Hoje, há 7.201 Stolpersteine espalhadas pelos bairros berlinenses e outras cerca de 50 mil divididas entre os demais países europeus contidos no projeto de Demnig. Entretanto, esses números são temporários: o projeto segue em contínuo crescimento, sendo seu custo pago através de doações. No site do projeto há mais informações nesse sentido.

Uma família inteira, que trabalhava no local onde as placas foram colocadas, deportada e morta em Auschwitz Foto: Laura Ammann

Uma família inteira, que trabalhava no local onde as placas foram colocadas, deportada e morta em Auschwitz
Foto: Laura Ammann

O nome Stolperstein – no singular – vem do verbo alemão “stolpern”, que quer dizer tropeçar. “Stein”, por sua vez, significa pedra. O nome, portanto, das “pedras do tropeço” é alusivo à condição de obstáculo que era ocupada pelos judeus nas décadas de 1930 e 1940 aos olhos dos nazistas. Da mesma forma, o tropeço histórico – se é que se pode reduzir a experiência à palavra – é hoje constantemente lembrado através desses obstáculos que se impõem aos pés dos pedestres, interrompendo seu percurso, fazendo-os “tropeçar”. 

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.