Spätis e kebabs: comida turca em Berlim

23/06/2017

Dicas de Berlim por Laura Amman

Späti é um diminutivo carinhoso de Spätkauf, pequenos mercadinhos, geralmente mantidos por turcos, que ficam abertos até tarde da noite ou funcionam 24 horas. Em Berlim quase todos os supermercados fecham aos domingos e aqueles que têm horários mais flexíveis ficam abertos até no máximo às 22h. Além disso, nos muitos feriados cristãos do país, os estabelecimentos em geral também costumam fechar. Nessas datas porém, os Spätis seguem abertos, já que os turcos que os mantêm costumam ser muçulmanos.

Um dos muitos Spätis de Berlim
Foto: Laura Ammann

Outro local tipicamente turco – mas também tipicamente berlinense – são os Kebabs. Essas portinhas pequenas e iluminadas são às vezes a única luz que se vê em uma noite em Berlim, que é uma cidade bastante escura. Dentro delas, em um espaço comumente apertadinho, turcos fazem Döners e Durüms com ingredientes frescos e saborosos. Vir à Berlim e não experimentar um é um desperdício. E a boa notícia é que praticamente a cada esquina encontra-se um desses lugares, geralmente identificáveis por placas que dizem “Grill”.

Um “Kebab”, como chamamos esses estabelecimentos de comida turca, visto de fora
Foto: Laura Ammann

É fato que os Spätis e os Kebabs já salvaram a vida de muitos “desorganizados” que se esqueceram de fazer as compras com antecedência. Mas a história dos turcos na Alemanha não começa com essas lojas. A Alemanha é hoje a maior comunidade turca fora da Turquia (com 2,700 milhões de turcos e descendentes), seguida pela França (com somente 280 mil). Em Berlim, as comunidades turcas se concentram na antiga parte ocidental, justamente pela história que os trouxe até aqui. Os bairros de Mitte, Neukölln, Kreuzberg e Schöneberg lideram a lista em número de turcos.

Um “Kebab”, como chamamos esses estabelecimentos de comida turca. Na foto, o Börek, um famoso salgado turco e os ingredientes para outros pratos
Foto: Laura Ammann

Um “Kebab”, como chamamos esses estabelecimentos de comida turca. Ao fundo da foto, a carne de kebab, chamada também de Gyros
Foto: Laura Ammann

A Alemanha Ocidental passou por um milagre econômico nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra, que fez com que o governo assinasse um contrato com outros países buscando trazer mão-de-obra estrangeira ao país. Assim, em outubro de 1961, os turcos foram oficialmente convidados a emigrar para a Alemanha. Esta buscava principalmente homens, que estivessem saudáveis e em plena idade de trabalho, pouco ou nada qualificados, que trabalhassem com atividades principalmente braçais.

O termo bastante conhecido que designa esses trabalhadores é “Gastarbeiter”, algo equivalente a “funcionários convidados”. O contrato desses trabalhadores tinha inicialmente uma limitação de dois anos, mas uma vez que a relação entre os empregadores e esses funcionários estrangeiros estava estabelecida, e os próprios alemães não se dispunham em realizar tal função, se tornou necessário que boa parte desses imigrantes permanecessem no país.

Atualmente vivem 470 mil imigrantes em Berlim, cidade que tem cerca de 3,5 milhões de habitantes. A comunidade turca na cidade não só é a maior fora da Turquia, mas também é a maior entre as comunidades não-alemãs em Berlim: 200 mil pessoas com passado migratório turco vivem aqui. Uma observação: a Alemanha, muito corretamente, não faz sensos baseados em etnias ou “raças”, de modo que essas contagens se baseiam exclusivamente na relação de nacionalidade com os países. Um imigrante turco, vindo de qualquer outro país, por exemplo, não entraria nessa conta.

Um dos muitos Spätis de Berlim
Foto: Laura Ammann

Berlim não seria nada sem seus imigrantes. Nem um só dia se passa sem que eu escute no metrô idiomas inidentificáveis, e nem uma semana sem que eu coma um kebab ou vá a um restaurante vietnamita. Os imigrantes fazem parte da cultura berlinense e, principalmente, de sua gastronomia. Ainda bem, pois se não fossem eles (“nós”), haveria nas ruas pouco além de barracas de curry wurst.

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.