Paixão na Serra Gaúcha

Sempre que volto de viagem, logo me sento para escrever o roteiro do que encontrei de melhor naquele destino. Mas desta vez será diferente. Acabo de retornar de uma série de visitas a vinícolas na Serra Gaúcha e, ao invés de já compartilhar as minhas recomendações, gostaria de relatar antes a minha experiência e, mais, as minhas impressões.

Cheguei em Bento Gonçalves junto com a primavera. Ou não exatamente. Fazia um frio de rachar e nunca é demais esperá-lo quando se vai à Serra. Na primeira noite, a previsão era até de neve, mas não nevou. A paisagem ainda não estava muito primaveril e eu a achei linda mesmo assim. O cenário da Serra Gaúcha me encantou e não me cansou. Ao abrir a janela do quarto do hotel, lá estavam as parreiras. Elas seguiam pelas margens da estrada que é o Vale dos Vinhedos e, mais ainda, dentro das propriedades onde estão as vinícolas. É maravilhoso.

O Sul do nosso Brasil realmente parece ser um outro país. Não guarda semelhança nenhuma com a mata fechada da Amazônia, nem com as praias e a brisa da Bahia. Muito menos com o caos de São Paulo ou o jeito carioca esperto do Rio. Talvez cada um desses locais seja também um outro país pequenino dentro do nosso vasto Brasil. Mas a região mais austral brasileira passa uma sensação forte de que atravessamos fronteiras.

Primeiro, pelo cenário. O visual espetacular da Serra Gaúcha é diverso de tudo que já vi pelo país. “Parece Europa”, as pessoas não se cansavam de dizer. E parece mesmo. As casas de pedra e alvenaria, sem muro e com charmosos jardins, as vinícolas e os pinheiros remetem ao interior de algum daqueles países que tanto amamos, como França ou Itália.

Em segundo lugar, pelo povo. A colonização italiana é fortíssima na região e os costumes não se perderam com o passar do tempo. Claro que as técnicas de produção de vinho são infinitamente mais modernas hoje do que há um século, mas o jeitinho italiano dos gaúchos da Serra às vezes nos faz esquecer onde estamos e nos transporta lá para a terra da bota. “A gente se encontra todo domingo, na missa, e depois nos reunimos para conversar”, conta Antonio Dal Pizzol que, juntamente com seu irmão João, comanda a bela vinícola que leva o sobrenome da família. “Batem papo em italiano?”, eu pergunto. “Em dialeto do Veneto. Eu nem consigo manter uma conversa em italiano, mas o dialeto por aqui não morreu”, ele complementa.

O amor às raízes, tanto dos descendentes de imigrantes, quanto à história gaúcha, é algo de se admirar. Paulistana que sou, tenho no meu sangue um bocado de ascendências europeias, assim como muitas pessoas que nasceram por aqui. Mas São Paulo recebe gente de tudo que é lugar do mundo e, sobretudo, do próprio Brasil. Por um lado, isso é fantástico e é o que faz a nossa cidade ser tão cosmopolita e de vanguarda. Mas, por outro lado, sinto muitas vezes que nossa identidade se perdeu e que nossas raízes têm se apagado. Sabe aquela frase “ninguém é de Nova York, as pessoas estão em Nova York”? Tenho um baita receio de que assim se torne São Paulo. E, por essa razão, fiquei fã dos gaúchos. Eles não deixam seus costumes irem embora com a chegada das novas gerações.

Imagine só que eles não só insistem em tomar chimarrão, como existe, ainda, toda uma tradição por trás do ritual. A primeira água nunca é servida para o convidado, pois pode estar fria ou então a erva estar ruim e, por educação, não se faz da visita a cobaia. Além disso, enquanto um está falando, o outro está bebendo. E sim, ouvindo. Olha que maneira civilizada de se conversar.

Além disso, fazer churrasco para os amigos e para a família é trivial lá no Sul. Cada um leva a sua faca para cortar a carne saída do espeto. Aqui em São Paulo se a pessoa chegar com uma faca na mão vai dar briga. Imagina no Rio então!

Em meio a tudo isso, estão os vinhos. Parte dos vinhos brasileiros é produzida em estruturas gigantescas e modernas como eu jamais imaginara. Independentemente se é uma grande companhia ou uma família proprietária, quase toda vinícola começou assim: plantações de uva que passaram de geração para geração e muitas delas continuam nas mãos dos descendentes do primeiro imigrante que fincou ali seu parreiral.

O vinho é cultura e, mais, é paixão. Impressiona a quantidade de jovens enólogos que estão à frente das maiores vinícolas do Brasil. Todos se iniciam cedo no ramo e demonstram competência e desenvoltura surpreendentes para as suas idades. Os olhos dos envolvidos com o mundo das uvas e do vinho brilham e é fascinante compartilhar de um pouco desse universo.

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Eu degustando vinhos na vinícola Miolo
Foto: Divulgação/Gilmar Gomes

As histórias emocionam e confesso que vez ou outra tive de disfarçar para que meus colegas não percebessem uma gotinha de emoção que queria rolar dos meus olhos. “Temos orgulho em dizer que criamos o primeiro projeto de enoturismo do Brasil”, conta João Valduga que, com seus dois irmãos, transformou a vinícola Casa Valduga em um dos locais mais charmosos e mais grandiosos da região. E que produz vinho de excelente qualidade. Seu fratello Juarez não cansa de estampar um sorriso no rosto enquanto ouve a explicação de João. O terceiro irmão, Erielso, estava botando a mão na massa durante a nossa visita, no engarrafamento de espumante. Eu nem me dei conta de quem era ele pois se mistura no trabalho entre os demais funcionários. A maior parte dos donos das vinícolas, aliás, arregaça as mangas mesmo e participa do processo e recebe turistas, tira prato, serve vinho. Não têm frescura.

Visitando a cave da Casa Valduga, eis que servem uma taça de vinho tinto colhida ali diretamente da barrica de carvalho. João Valduga explica: “é o vinho que fizemos em homenagem ao nosso pai, Luiz Valduga, e temos o sonho de lançá-lo. Vocês são os primeiros a degustá-lo”. E dá para não se emocionar?

Ana Maria Junqueira está sempre viajando pelo mundo. É editora do Magari blu, consultora em viagens e a embaixadora de viagens da Perrier no Brasil.