O causo do avião

Cruzar o Atlântico no percurso São Paulo-Roma (ou vice-versa) é sempre um perrengue.

Primeiro porque somente uma companhia oferece vôo direto e, seja pela comodidade da falta de concorrência, seja pela falta de paciência mesmo, o tratamento dos passageiros é distante do que se espera. Ou então, se quiser escolher outra empresa aérea, prepare-se para o perrengue da escala e a demora de pelo menos umas 15 horas para se chegar no destino final.

Eu abomino escala e conexão mais do que ser mal tratada pela aeromoça, então sempre opto pelo tal vôo direto. Tenho fobia de mala perdida (sou daquelas que fica em primeiro lugar na esteira), então tento diminuir essa probabilidade, e, na minha opinião, já estamos longe o suficiente para dilatar ainda mais as horas que separam o check-in da alfândega. É escolher, para si, o menos pior.

Espero ansiosamente um dia poder abandonar a classe econômica e me jogar nas mega poltronas e tacinhas de champagne da primeira classe. Da executiva mesmo já serviria. Mas enquanto isso não acontece, sigo viajando com a turma do fundão.

A primeira vez que peguei esse vôo foi tipo traumática. Eu estava viajando sozinha, e morrendo de calor no avião, o que é um fato inédito, porque o ambiente sob as nuvens é sempre gélido.

Os meus companheiros das poltronas vizinhas começaram a se manifestar com o mesmo incômodo. As freirinhas que estavam na fileira da frente se levantavam e se abanavam com o cartão com as instruções de segurança e eu via o suor escorrendo por debaixo do véu de seus hábitos. O que aumentou a minha temperatura corporal só de imaginar a febre que me tomaria o corpo se eu estivesse toda coberta daquele jeito.

Uma aeromoça passou, a freira a chamou, cutucando o seu ombro delicadamente, e ela a ignorou na cara dura como se não tivesse visto. O que me causou uma revolta interna.

Ora, além do calor que eu também compartilhava, ignorar uma freirinha é muito cruel. Então dei uma de cabeça da turma e me prontifiquei a falar pelo povo:

– Gente, deixa comigo. Vou lá atrás pedir para aumentar o ar condicionado.

Quase fui aplaudida pelos suados passageiros. Chegando lá no final do avião, avistei o aeromoço (eu sei que esta palavra não existe, mas eu a uso mesmo assim) e o chamei, muito delicadamente:

– Por favor, senhor?

Ele estava sentado de costas fazendo cruzadinha no jornal. Virou-se, me olhou por cima dos óculos, e gritou:

– Um momento!

Eu fiquei tão perplexa que ele tinha urrado comigo que fiquei tipo boquiaberta mesmo e não respondi nada. Só o encarei fixamente.

O outro aeromoço olhou para a minha cara, achei eu que ia perguntar o que eu desejava, mas não. Fiquei ali, sozinha, ignorada, pensando o que eu tinha na cabeça quando escolhi ir para a Itália. Seria todo mundo assim? (Não, ainda bem que não são).

O senhor que havia me mal-tratado continuou a fazer sua cruzadinha depois do seu berro. Inacreditável.Então quando ele a completou, eu continuava ali apática, e ele me perguntou:

– Mas o que você quer?

– Pedir para aumentar o ar condicionado, por favor, pois está muito calor.

– Mas como posso mexer na temperatura se você não me disser a sua poltrona?

– Mas como poderia já ter dito a minha poltrona se estou esperando há 5 minutos pela sua atenção??

Bate-boca terminado, voltei para o meu lugarzinho do pau-de-arara e dividi a experiência com os demais. Inclusive com as freiras.

Revolta geral, mas pelo menos ficou frio no avião.

No último vôo que peguei, estava eu dormindo na minha poltrona, sem incomodar ninguém, quietinha no aconchego dos meus sonhos, quando acordo sentindo um objeto cair no meu colo. Eram os fones de ouvido, arremessados pela aeromoça.

Só podem ter sido jogados com força, porque são tão leves, que eu jamais acordaria com eles. E com o susto não só acordei, como dei aquele ligeiro pulinho de quem quase infartou do coração.

Abri os olhos e dei de cara com ela, toda maquiada, também gritando em seu inglês macarrônico:

– Something to drinkeeee?

Foto: magari blu

– Uma taça de vinho tinto, por favor, porque a viagem está apenas começando…