O causo da viagem de esqui

Dizem que tudo que se aprende quando criança é mais fácil. Seja uma outra língua, seja um esporte, seja uma dança… Seja o que for.

Pois é. E eu inventei de aprender a esquiar. Depois de “velha”.

Tinha meus traumas de infância, ou melhor, de adolescência, com o esqui e resolvei tentar superá-los.

Lá fui eu para Aspen com mais quatro amigas, sendo que, das quatro, apenas uma esquiava bem. Oportunidade única, reunir melhores amigas pernas de pau na neve, não é? Agarrei esta oportunidade e nos matriculamos na escolinha de esqui juntas.

Primeiro dia de aula: perdemos a aula.

Ora, veste a roupita térmica, o casaco, a calça, as luvas… Aluga a bota, o esqui – que depois fui perceber que era muito mini por ser de iniciante (um pouco até humilhante apoiado na parede do lado de outro esqui, digamos, de gente grande)… Bem, era tarde demais!

Foi tanta função para ficarmos prontas que perdemos o primeiro período da aula! Tudo bem, remarcamos para o período da tarde e lá fomos nós.

Nosso professor era um senhorzinho de 82 anos. Isto mesmo, 82! Fofo, não?

Não!

Eu tive dificuldade em aprender a freiar e o medo de machucar os outros no pé da montanha fazia com que eu me jogasse na neve ao sentir que o controle estava perdido. Toda vez.

O professor só fazia cara de reprovação e gritava:

Holy cow, Ana Maria!

Na primeira subida com o ski lift já fui aterrorizada, pois uma das minhas amigas teimava em dizer que descer do lift era o mais difícil de esquiar.

O que então aconteceu?

Caí!

O lift foi paralisado depois de os operadores gritarem para mim:

Head down, head down! – para eu ficar com a cabeça abaixada.

Mico?! Imagina.

E lá na frente estava o professor com cara de reprovação…

Depois de dois dias da falta de paciência dele, troquei de instrutor. Aí sim melhorou o meu esqui. E aí sim passou a ser divertido. Até descer do lift.

No último dia da viagem, desci a pistinha das aulas duas vezes graciosamente, dominando o recanto das lições.

Então resolvi tentar descer uma pista que era um pouco mais inclinada, um pouco mais estreita.

“Paniquei”.

Disseram que a parte mais difícil daquela pista, a mais íngrime, eu desci maravilhosamente bem. Acho que é exagero.

Mas foi aí que bateu tudo junto: cansaço, medo, dor no joelho. E agora?

Nem sempre tem alguém cheio de paciência com você numa hora dessas, mas eu tinha. E ele tentou me ajudar de todas as maneiras possíveis. Até encaixar o esqui por fora do meu, como um pai com o filhinho, para descermos juntos, com ele no controle. E até esquiar de mãos dadas também.

Mas cada descidinha era uma capotada! Derrubei até minha alma caridosa no seu único tombo em Aspen.

A neve queria me engolir e eu acabei a engolindo. Literalmente. Pela boca. E também pelas costas peladas no tombo que me ralei toda montanha abaixo. Comecei a perder a paciência!

Dada uma certa hora, eu simplesmente cansei. Os joelhos não obedeciam mais, estava com dor, irritada, e aquela pista aos meus olhos estava só aumentando no comprimento e na inclinação.

S.O.S.!

Quando eu vi, estava eu subindo na maca do snow patrol, que resgata os machucados na neve.

– Preciso ir deitada? – perguntei à condutora, envergonhada.

– Não. Sente-se aqui e apoie a bota ali na frente. Segure firme.

Olha, toda a vergonha que eu estava sentindo em descer a montanha de maca sumiu quando a maca começou a deslizar ladeira abaixo.

Devo dizer que foi uma das sensações mais divertidas e cheias de adrenalina que experimentei na minha temporada de esqui.

A esquiadora do snow patrol, obviamente, é de um nível excelente, e a velocidade e as manobras que ela faz com os esquis nos pés e os apoios da maca nas mãos – no lugar dos poles – faz o passeio ali atrás não dever nada para nenhuma montanha-russa!

Divertidíssimo.

No meio do caminho, troquei de veículo e fiz o final da descida em cima de um snow mobile. Para completar a diversão.

Depois de tudo isso, quem é que vai dizer que eu não conheci todas as facetas da montanha?! E a neve é muito divertida. Até sem esqui nos pés!

Aspen
Foto: magari blu