James Turell e suas luzes na capela do cemitério de Dorotheenstadt, em Berlim

09/06/2017

Dicas de Berlim por Laura Amman

Há, no cemitério de Dorotheenstadt, em Berlim, uma capela singular. A história do cemitério remonta ao século 18, tendo ele sido construído na década de 1760. Naquela época, ele se localizava fora dos muros da cidade, próximo do portão de Oranienburg, já que, com o crescimento da cidade, ela se tornara pequena para seus mortos, que passaram a ter que ser enterrados do lado de fora.

O Cemitério Dorotheenstädtischer Friedhof
Foto: Laura Ammann

Evidentemente, no início somente pessoas de baixo status social eram encaminhadas ao Dorotheenstädtischer Friedhof. No entanto, essa situação mudou. Em parte – e ironicamente – isso se deu justamente por causa da localização do cemitério: a proximidade à atual Universidade Humboldt (então Friedrich Wilhelm Universität) levou algumas figuras proeminentes ao seu solo. Entre os famosos que descansam em paz no Dorotheenstädtischer Friedhof estão o filósofo Hegel, o dramaturgo Bertold Brecht, o escritor Heinrich Mann (cujo irmão Thomas tem mais fama) e o arquiteto Karl Friedrich Schinkel.

Além deles, muitos resistentes ao regime nazista se encontram enterrados no cemitério, que também ostenta um monumento em homenagem a eles. Os bombardeios da Segunda Guerra atingiram fortemente o cemitério Dorotheenstadt e sua capela de luto (Trauerkapelle), construída em 1928. Após a guerra, a fachada e o teto da capela, mas também sua estrutura interna, foram reconstruídos diversas vezes.

A capela, vista de fora
Foto: Laura Ammann

A capela, vista de fora
Foto: Laura Ammann

Em 2015, o interior da capela foi reformado e se tornou palco para uma obra do artista americano James Turell. O responsável pelo projeto arquitetônico é Nedelykov Moreira, enquanto o projeto de Turell consiste em uma instalação de luzes que dialogam com a arquitetura da capela. O caráter asséptico de seu interior remete imediatamente à noção de “moderno” e não seria totalmente avesso lembrar do modelo “cubo branco”, desenvolvido para ambientes expositivos. No entanto, o olhar atento observa certa correspondência com elementos tradicionais da arquitetura religiosa.

Interior da capela, com a instalação do artista James Turell
Foto: Laura Ammann

O teto triangular, a planta baixa retangular e o “apsis” (abside) são traços arquitetônicos presentes já nas primeiras igrejas cristãs, construídas entre os séculos 2 d.C. e 5 d.C. baseadas nas construções romanas. A transformação desses elementos ao longo dos séculos orienta a divisão dos estilos arquitetônicos e identifica determinadas construções em um ou outro período. Por exemplo, as igrejas bizantinas adaptaram a planta retangular em um formato de cruz, ao mesmo tempo que substituíram o teto triangular por uma cúpula central. Do mesmo modo, durante a Idade Média, o estilo românico retomou o teto triangular, abandonando no entanto a planta rigidamente retangular.

Interior da capela, com a instalação do artista James Turell
Foto: Laura Ammann

Com esses três elementos, a capela do Dorotheenstadt dialoga com uma longa tradição. Além disso, longas janelas verticais, evidenciadas pelas luzes de Turell, podem lembrar sem muito esforço os mosaicos em vidro das igrejas góticas. Assim como a intensidade com que a luz natural atingia essas janelas influenciava a iluminação interna dessas igrejas, as janelas opacas da capela do Dorotheenstadt são regidas não só pelas luzes artificiais de Turell, mas principalmente pela luz do sol. O interior possui também um mezanino como espaço simbólico para o órgão, cuja relação com a liturgia se inicia ainda no século 8 d.C. O primeiro órgão ocidental foi dado de presente pelo então imperador bizantino, Constantino V, ao rei dos Francos, Pepino, o breve. Era da vontade de seu filho, Carlos Magno, ter um instrumento semelhante em sua catedral em Aachen (onde hoje se encontra seu túmulo), momento a partir do qual tornou-se comum incorporar o órgão à liturgia cristã.

Interior da capela, com a instalação do artista James Turell
Foto: Laura Ammann

O trabalho de Turell é conhecido por lidar com os subjetivos elementos tempo, luz, espaço e percepção. O seu programa de luzes na capela do Dorotheenstadt ilumina durante cerca de 30 minutos o interior e exterior da capela com cores sagradas e suas variações. Vermelho, azul e verde são frequentemente associados ao reino de Deus, bem como o dourado é a cor que simboliza de forma máxima o sagrado. A própria luz é um tema tradicional cristão. As igrejas cristãs, ao longo de toda sua história, importaram-se em levar o fiel não somente do oeste ao leste (onde se encontra o altar), mas da escuridão à luz. Do mesmo modo, a iconografia dentro da construção cristã leva do terreno ao celeste, do antigo testamento ao novo, do pecado à luz. A estrutura se desenvolve arquitetonicamente de forma hierárquica, tornando o altar o ponto mais iluminado da igreja. As luzes de Turell brincam com esses significados de modo solto, por vezes subvertendo essa norma simbólica e, por outras, (acidentalmente?) reafirmando-a.

Interior da capela, com a instalação do artista James Turell
Foto: Laura Ammann

O único modo de visitar o interior da capela é agendando uma visita através do site. Os passeios guiados duram uma hora e são realizados tanto em alemão quanto em inglês. Os tours acontecem sempre no durante o pôr-do-sol, para melhor observação das luzes; mas atenção: esse horário varia muito dependendo da estação do ano.

Interior da capela, com a instalação do artista James Turell
Foto: Laura Ammann

Onde encontrar:
www.evfbs.de

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.