Em casa na Jordânia

Acabo de voltar pela primeira vez do Oriente Médio. Depois de uma passagem de menos de 24 horas em Dubai, segui para a linda Jordânia, onde fiquei 10 dias.

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Contemplando a bela Jordânia
Foto: magari blu

Os trechos internos foram feitos todos de forma terrestre, pois em poucas horas você consegue cruzar o país. Isso é ótimo porque, além de pular o stress do aeroporto, a gente vai apreciando a paisagem e entendendo melhor como de repente ela pode mudar tanto. Tudo isso ao som da música árabe no rádio!

Amã (a cidade branca), Rio Jordão (onde Jesus Cristo foi batizado), Mar Vermelho (que, na verdade, é azul marinho), Mar Morto (o ponto mais baixo do mundo, onde a gente tenta, tenta, mas não afunda), Petra (a cidade escondida e esculpida na pedra rosa), Wadi Rum (o deserto de dunas e montanhas rochosas)… São alguns dos locais que passei. São quase que opostos, com variados tons e sensações.

Muita gente tem me perguntado o que eu gostei mais nessa viagem. Ora, não sei responder. Cada local me tocou de uma forma e nenhum deles deixou de me tocar. Acho que isso é o mais importante quando a gente está viajando, não é? E que nos deixa com muita vontade de voltar.

Sobre as cidades e cada aspecto desses destinos falo com detalhes aqui. Hoje, quero falar do povo da Jordânia. Da comida. Da cultura. E de como me senti em casa, mesmo estando tão longe e em um mundo tão diferente do meu.

Como todo mundo sabe, a Jordânia é um país muçulmano. Quando estava visitando as ruínas de Jerash, cidade romana muito bem preservada perto de Amã, ecoou a chamada para a reza. O som vem dos auto-falantes das mesquitas, e, para quem não fala árabe, soa como um canto, ou até mesmo como a própria reza. Escutá-la em meio a estruturas e colunas antigas fez com que eu me sentisse em um filme. Como eu queria entender o que aquela gravação dizia… Quem sabe até orar com ela.

A proximidade com a religião, aliás, é muito forte nos países árabes. Pedi para visitarmos uma mesquita, o que ficou para o último dia. A mesquita era a Rei Abdullah I em Amã. As mulheres rezam separadamente, em outra sala, mas como éramos turistas pudemos entrar na sala principal – a dos homens, claro. Antes, pus sobre a minha roupa tipo um vestidão preto e cobri os meus cabelos com a minha pashmina. Sapatos não entram na mesquita, que é forrada com um carpete fofinho, vermelho, com linhas e estrelas estampadas. Luay, o guia que fala português, explica como se reza. Começam todos levantados, com os pés sobre as linhas, tocando nos pés dos vizinhos (para não deixar o diabo passar). O ritual continua até que o ponto mais alto do corpo, a testa, toca o chão. Versos do Al Corão são repetidos. É bem bonito.

Depois de 10 dias na Jordânia, já estava acostumada com as mulheres com os cabelos cobertos pelo véu. Dificilmente se vêem burkas que cobrem todo o rosto por lá, daquelas que só deixam os olhinhos de fora. As que se vestem assim devem vir da Arábia Saudita. Na Jordânia, apesar de a maior parte das moças e senhoras cobrirem a cabeça, muitas delas usam calças jeans, salto alto e lenços estampados e coloridos. As mais jovens fazem o coque com os longos cabelos no topo da cabeça, o que deixa com volume o véu que a cobre. Fica interessante. Elas abusam também de maquiagem, olhos bem pintados e definidos ressaltam nos rostinhos das muçulmanas. Confesso que fiquei com vontade de me vestir um dia como elas!

Em Aqaba, à beira do Mar Vermelho, foi onde me senti mais diferente, misturada ao resto das pessoas na rua. Longe da capital e de outros destinos mais acostumados a receber turistas como Petra e o Mar Morto, a comunidade local estranha bastante ver mulheres com traços diversos dos deles, cor diferente de pele e de cabelos (descobertos) e, claro, roupas modernas para o padrão (ainda que tenhamos evitado ombros de fora, decotes e vestidos curtos). Mas basta a calça jeans com um corte diferente ou um vestido na altura dos joelhos para atrair a atenção. O meu sentimento é que olhavam porque estranhavam, não porque achavam bonito, nem porque reprovavam. Não só homens, mas inclusive as mulheres olhavam. Eu retribuía com um sorrisinho. Era um ET simpático, ao menos.

A comida na Jordânia é um capítulo à parte. Foi lá que provei o melhor hommos que já comi na vida. Aliás, a gastronomia local é tipo incrível. Todos os dias comia super bem, experimentava as minhas iguarias preferidas e coisinhas novas. Sempre boas surpresas. Um pouco diferente da comida árabe que estou acostumada no Brasil. Mais gostosa, eu diria.

No deserto de Wadi Rum, ousei um pouco mais. A forma tradicional dos beduínos de cozinhar é fazer a comida enterrada. São buracos de alvenaria debaixo da areia, onde a lenha queima e cozinha, por horas, carnes de frango e carneiro, arroz e legumes. O buraco é fechado com uma tampa, coberta por algumas folhas de papel alumínio e enterrado, literalmente, com areia. A gente nem imagina que ali embaixo tem algo cozinhando pois a areia esconde por completo o “forno”. Depois de 3 horas, com uma pá, o cozinheiro beduíno tira a areia de cima do local, o papel alumínio, abre a tampa e puxa a estrutura de ferro onde estão os alimentos. O sabor é uma delícia, a carne desmancha. Foi uma experiência gastronômica inusitada e talvez a mais diferente que já encarei.

A hospitalidade dos beduínos também merece destaque. São super simpáticos e atenciosos. Aliás, o povo jordaniano em geral. Luay, o guia, e Hatem, o motorista, estavam o tempo todo conosco e fizeram com que a gente se sentisse em casa. Ao mesmo tempo em que tudo é muito diferente do que temos no nosso país, nos esquecemos que estamos longe assim do nosso lar. São acolhedores e têm essa mania de querer cuidar da gente. O que eu adoro.

Aproveitei ao máximo o tempo que tinha por lá para fazer tantas perguntas que nunca tive a quem fazer. Esclareci muitas dúvidas, aprendi tanto. Que sorte foi ter um guia que falava português porque conversávamos o tempo todo. As minhas companheiras de viagem também tiveram um papel super especial. Conheci a Carol e a Alessa, que também trabalham com turismo, só no aeroporto minutos antes de embarcarmos. Mas parecia que já fazia muito tempo.

No último dia, ao me despedir dos nossos gurus na Jordânia, notei uma lágrima rolar pelo rosto do Hatem – ou Hatucho, como o apelidamos. Foi o suficiente para eu também cair em lágrimas e quebrar o protocolo abraçando nossos amigos jordanianos. Incrível como uma viagem pode nos ensinar tanto e até mudar as nossas vidas.

Feliz. No deserto de Wadi Rum
Foto: magari blu

*Obrigada a JTB – Jordan Tourism Board e a Live Travel por proporcionar lindos dias na Jordânia!

Ana Maria Junqueira está sempre viajando pelo mundo. É editora do Magari blu, consultora em viagens e a embaixadora de viagens da Perrier no Brasil.