Diário de bordo: Nepal

No voo de Doha a Kathmandu, surge a expectativa de, pela primeira vez, encarar a Cordilheira do Himalaia de perto. Já imaginava que não seria ainda que poderia visualizar o Everest, mas não tinha problema. São tantos picos “quase” o mais alto do mundo, cobertos de neve azulada, que já valeram a vista na viagem.

Na chegada ao aeroporto, depois de obter o visto e passar pela imigração, as esteiras de bagagem já traduzem o caos. São pouquíssimas e parecem não atender a quantidade de passageiros. E é gente que não para de brotar de todos os lados.

Muitos trazem seus pertences como em um trouxa, de lona, amarrada com cordas. “De onde vêm e por que não têm malas?” – é inevitável não pensar.

Na saída, o que achei mais divertido é o número de pessoas esperando do lado de fora do aeroporto. Aqui, não é permitido ingressar no saguão, nem no desembarque, se você não tiver um bilhete em mãos. Por esta razão, motoristas, guias, familiares e amigos se amontoam junto ao portão de saída para recepcionar quem chega. Achei graça; não esperava ver tanta gente junta!

Kathmandu é assim. Meio caótica, meio desorganizada, meio lotada. Tem uma poeira no ar, e não saberia dizer se ainda sobe por conta do avassalador terremoto de 2015 ou se sempre foi assim. Muitas ruas estão esburacadas, reviradas, sem pavimentação.

A praça Durbar, um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital do Nepal, foi fortemente atingida pelo terremoto e quase todos seus templos de madeira desapareceram. O que restou está sendo restaurado a passos de tartaruga e dá um aperto no coração ver não só o patrimônio histórico e religioso destruído mas, também, pensar nas milhares de pessoas que perderam tudo e ainda lutam para se reestabelecer.

Durbar Square e parte da destruição do terremoto de 2015
Foto: Ana Maria Junqueira

Eu, que nunca fui a Índia, me senti na Índia – só que estava no Nepal. A começar, pelo biotipo do povo, que lembra bastante a cor de pele, os cabelos e os traços dos indianos. Em segundo lugar, pela religião (e cultura) hindu. E, claro, pelas roupas, pela comida e pelo “terceiro olho”.

Nepalesa em Kathmandu
Foto: Ana Maria Junqueira

O Nepal, para mim, sempre foi sinônimo de trilhas e escaladas, portanto ter uma experiência diferente foi surpreendente. A começar, pois foi aqui que tive meu primeiro contato com a medicina ayurveda. Uma médica que discorre sobre sua personalidade com base na pulsação? Quando ouvi por cima do que se tratava a consulta, devo dizer que me soou como charlatanismo. Mas, na realidade, muito embora ela sinta, sim, a sua pulsação, não é somente com base nela que traça seu perfil.

Seja qual for o mistério por trás desta ciência, ou crença, certo é que me descreveu perfeitamente, em detalhes como tipo físico, anseios, manias, condução da energia. E me deu algumas dicas preciosas. Sem misticismo, mas bem práticas, inclusive.

Entretanto, a experiência mais forte no Nepal foi logo na primeira noite em Kathmandu. Caí de gaiato numa cerimônia chamada “aati”. Celebrada diariamente no final do dia, com incensos e música, acontece no templo Pashupatinath, junto ao rio Bagmati. Este rio, assim como o Ganges indiano, é sagrado para os hindus. No decorrer da celebração, presenciada quase que apenas por locais, chama a atenção que algumas mulheres parecem entrar em transe, cantando e dançando – e me pego entrando em transe junto com o olhar, tentando entender o que estão sentindo.

Bem à minha frente, apenas separada de mim pelo rio, está uma plataforma com um final de chama acesa, sendo lavada e enxaguada. Ali é o local onde corpos são cremados diariamente no rio Bagmati. A limpeza demonstra claramente o que acabara de terminar. Senti um certo alívio de não ver uma cremação, talvez por não ter me preparado psicologicamente ainda para vivenciar este momento em Kathmandu.

Não muito tempo depois, ainda durante a cerimônia religiosa, noto que foi alocado ao lado um corpo de um defunto. Coberto por um pano branco, foi deixado ali, provavelmente na expectativa de sua preparação para a incineração na manhã seguinte. Que, de novo, não assisti. Realmente não era o momento de eu presenciar esta transição.

Mas, mesmo assim, notei que nenhum parente se aproximava daquele corpo. Não sei dizer se era um homem ou uma mulher; pelo tamanho parecia um adulto. No entanto, não havia nenhuma viúva chorando, nenhuma criança triste por perto. Muito pelo contrário.

O que acontece é que os hindus veem como uma dádiva o corpo de um falecido estar presente em uma cerimônia “aati”. Fez-me refletir bastante sobre a minha própria concepção da morte e a maneira como encaro este momento, mais como perda do que como passagem. Tomou o meu peito uma sensação de abandono ao ver um morto deixado sozinho junto ao rio. Já para os nepaleses, era sinônimo de benção.

Meditação em Dhulikhel
Foto: Ana Maria Junqueira

Certamente tenho muito ainda a aprender com os hindus…

Fale conosco para organizar a sua viagem:

[email protected] 

Ana Maria Junqueira é a idealizadora do blog Magari Blu e fundadora da premiada agência de viagens Magari Blu Viagens. Escreve sobre viagens, faz a curadoria de todo o conteúdo que você vê por aqui e organiza roteiros personalizados e reservas.