Diário de bordo: como foi mudar de profissão e trabalhar com viagens

Faz algum tempo que não falo da minha trajetória pessoal aqui no Diário de Bordo, espaço que tenho usado mais para meus contos de viagem.

Por isso, hoje decidi falar da minha maior viagem: quando decidi mudar de profissão.

Em 2011, o Magari blu começou como mais um blog de uma brasileira morando fora, que nada mais queria que um espaço para contar e publicar suas histórias. E, claro, fazer também algumas indicações das suas descobertas.

Isso tudo aconteceu em Roma, cidade que escolhi para morar por um ano e pouco, o único pontinho no mundo em que me sinto em casa, fora de casa. Só de falar sobre Roma, um sorrisinho desperta no canto da boca. Foi um ano mágico, cinematográfico, que deixou profundas marcas na minha trajetória – relembre aqui.

Eu, quando tudo começou: A redação era o meu terracinho no quarto do apê em Roma (2011) Foto: magari blu

Eu, quando tudo começou:
A redação era o meu terracinho no quarto do apê em Roma (2011)
Foto: magari blu

“Blogar” despertou uma antiga paixão, a de escrever. Sempre escrevi muito durante a vida. Meus pais contam que eu aprendi a escrever sozinha, batendo nas teclas do computador 486 recém-adquirido pelo meu pai, em um mundo em que internet, tablets e smartphones não existiam.

Quando minha mãe me matriculou na escolinha, a professora perguntou se eu já era alfabetizada porque reunia as sílabas, formando palavras e frases – só não sabia muito bem quando terminava uma palavra para começar outra, “eramaisoumenosassim” que eu escrevia!

Mas não, eu não havia sido alfabetizada ainda. Era uma intuição inata, que esteve comigo durante toda a minha infância. Enquanto outras crianças brincavam de subir em árvores e jogar queimada, eu fazia mini livros e muita poesia, e dizia aos meus amiguinhos que queria ser escritora. “Assassinato na Rua Inglaterra” foi uma dessas histórias, e olha que eu não tinha mais que 10 anos, falando de crimes passionais e usando palavras que aprendia nas minhas longas leituras de Monteiro Lobato, Agatha Christie e romances infantojuvenis.

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Eu, quando criança, adorava passar o tempo assim… Lendo e escrevendo! (1980 e poucos)
Foto: arquivo pessoal

No meu aniversário de 9 anos, meus pais me surpreenderam com uma máquina de escrever. Foi o melhor presente que já ganhei em toda a minha vida, até hoje com 31 anos. Um sonho realizado, um equipamento só meu para escrever (e apagar – esta máquina corrigia, muito moderna!) tudo que eu quisesse.

Pois bem, durante a minha juventude acabei sucumbindo à pressão (muito bem-intencionada, diga-se de passagem) do meu pai para que eu estudasse Direito. Ele via em mim um grande futuro como advogada, sócia de uma renomada banca, defendendo teses nos tribunais afora. Segui esse sonho, que até então eu não sabia direito que não era o meu, por mais de 10 anos.

Foram 5 anos de faculdade, 4 desses anos estagiando, mais 6 anos advogando. Escolhi o mestrado em Direito Privado Europeu, em Roma, como uma tentativa de enveredar para um caminho novo, o acadêmico, já que as petições e os recursos não faziam meus olhos brilharem. E foi lá que o Magari blu, por acaso, nasceu.

A turma do mestrado em Roma Eu estou de vestido azul,  frente Foto: arquivo pessoal

A turma do mestrado em Roma
Eu estou de vestido azul, à frente (2012)
Foto: arquivo pessoal

O dia em que eu apresentei a tese em Roma Eu sou a da esquerda Foto: arquivo pessoal

O dia em que eu apresentei a tese em Roma
Eu sou a da esquerda (2012)
Foto: arquivo pessoal

Terminei o mestrado e voltei ao Brasil (quem se lembra da despedida de Roma?). O Magari blu continuou em paralelo a todo vapor e era aqui nessas linhas que eu mais me realizava. A ideia de seguir meu sonho – e vocação – foi crescendo devagarinho. Trabalhava no blog todo dia até de madrugada.

Depois de dois anos de existência do Magari blu, e um ano que estava de volta ao Brasil (advogando todo esse tempo), senti que estava pronta a arriscar.

Para mim, mais difícil do que tomar essa decisão foi assumi-la para o resto do mundo. Conversei com a minha família, com meu namorado à época (que hoje é meu marido), com meus amigos. Fui parar até na terapia.

Opiniões divididas, a maioria me incentivou a seguir o sonho, até porque eu já tinha uma base de onde começar, que era meu blog, e porque não só amava fazer isso, como sabia fazer. Toda aquela história que contei de como escrever sempre fez parte da minha vida desde a mais tenra idade com certeza me deu um respaldo para acreditar que poderia dar certo, sem falar em tantos anos convencendo juízes e desembargadores com o poder da palavra. Foi um belo de um treino para seguir qualquer carreira que envolvesse textos e mais textos.

A minha família ficou bem dividida, pois, claro, nossos pais são os que mais querem nos proteger de eventuais tombos e apertos, e, ainda, vêm de uma geração que não tem tanta facilidade assim com mudança como tem a minha e as que me seguem.

E no escritório? Bem, confesso que pedi demissão aos prantos, em um mix de insegurança, medo e também de tristeza com a despedida depois de cinco anos trabalhando ali. E não tive coragem de dizer que estava prestes a abandonar a advocacia; disse que precisava de uma mudança e queria pensar um pouco. Achei que o baque e a fofoca nos corredores seriam atenuados se a versão disparada fosse essa, e foi uma boa saída naquele instante.

Muita gente me pergunta como saber o momento certo de jogar tudo para o alto. Bom, eu nem gosto dessa expressão, pois nunca quis jogar nada pra alto nenhum! O meu momento chegou depois de ter exaurido uma grande série de tentativas, em diferentes áreas, em diferentes escritórios, em diferentes tarefas.

Estava claro pra mim que eu poderia, sim, viver o resto dos meus dias fazendo aquilo, subindo os degraus da carreira jurídica, com uma certa segurança de que os reajustes salariais e as promoções viriam, como vinham vindo. Mas eu não queria viver o resto dos meus dias fazendo algo que eu simplesmente suportava. E ponto.

Dito isso, o momento certo para decidir mudar foi quando eu sabia o que poderia então fazer da vida, e quando consegui estruturar um plano inicial do que seria meu profissional dali em diante.

Por isso que não gosto de falar “jogar tudo pro alto”, porque por mais romântico que seja, sem planejamento as mudanças são mais difíceis ainda do que já são, mesmo com um plano.

A minha ideia foi juntar um dinheirinho durante um ano, ainda advogando, e começar o novo rumo estudando, no caso, jornalismo. Fui aceita na pós-graduação e durante um ano e meio, duas vezes por semana, tive meu primeiro contato com a área de comunicação em sala de aula. Pra mim, valeu bastante a pena. Terminei (e passei!) nas disciplinas e agora estou trabalhando na minha monografia.

Neste ínterim, trabalhei um tempinho como repórter do Glamurama, uma oportunidade e tanto que agarrei para, pela primeira vez, estar numa redação de site. Foi uma experiência importante, que me deu um novo olhar, e só não durou mais porque o que eu queria mesmo era falar sobre viagens! E não parei mais.

Participação na rede Record falando de viagem (2013) Foto: arquivo pessoal

Participação na rede Record falando de viagem (2013)
Foto: arquivo pessoal

Mais um ano se passou e, entre posts diários e uma matéria aqui, outra acolá, a operadora Teresa Perez, que foi a minha primeira grande parceira, me convidou para ser sua consultora independente. A proposta era trazer as pessoas interessadas em ter meu atendimento e minha consultoria em roteiros de viagem e organizarmos tais viagens a quatro mãos. Receosa, aceitei – e estourou!

Nos primeiros meses, levei um lindo prêmio de destaque da operadora, que está brilhando na minha estante – vem ver. E desde então atendo meus clientes com o maior carinho, numa extensão daquilo tudo que vocês leem aqui no site e que consigo transformar em realidade nas férias das pessoas. É bem recompensador.

Prêmio da Teresa Perez Tours Foto: magari blu

Prêmio da Teresa Perez Tours (2014)
Foto: magari blu

Faço também roteiros day by day com programação sob medida para quem não quer todas as reservas, mas, sim, um olhar personalizado para a sua viagem. Além de oferecer serviços como guias, motoristas, vistos, eventos especiais e assim por diante.

O que me faz crescer, pouco a pouco, mas a cada dia, é me entregar ao novo – com medo, receio, insegurança, mas me entregar e arriscar.

Há 5 anos nunca diria que estaria hoje escrevendo sobre viagens, que teria um site de viagens do jeitinho que eu sonhei – e hospedado no 2º portal mais acessado do Brasil, o R7 – e muito menos com a minha agência crescendo. Mas foram caminhos que naturalmente se apresentaram e que segui, sem arrependimentos. E com bastante paciência e determinação, diga-se de passagem, pois recomeçar do zero não é nada fácil – faz 2 anos e meio que saí do meu antigo emprego.

Eu no deserto Wadi Rum na Jordânia (2013)
Foto: magari blu

Trabalhar com viagens me dá a oportunidade de conhecer um monte de lugares superinteressantes e pessoas de tantas culturas. Tem sido uma baita realização pra mim.

Se você tem esse sonho, ou qualquer outro, siga esse mantra: antes de tudo e de todos, você tem que acreditar e trabalhar duro para seu projeto dar certo. E ter em mente que colhemos aquilo que plantamos. A matemática é simples: fazer um bom trabalho e pensar nos frutos como consequência, não como pontapé inicial. Pelo menos é isso que eu tento fazer todos os dias.

Ana Maria Junqueira está sempre viajando pelo mundo. É editora do Magari blu, consultora em viagens e a embaixadora de viagens da Perrier no Brasil.