“Castelo de caça” em Berlim: Jagdschloss Grünewald

Dicas de Berlim por Laura Ammann

São poucos os prédios em Berlim que testemunharam o Renascimento e ainda podem ser vistos hoje. O Jagdschloss Grünewald é um deles. O palácio real dedicado exclusivamente à temporada de caça, para onde o príncipe Joaquim II de Brandemburgo levava parte da corte e convidava indivíduos influentes da época para uma temporada, fica no bairro de Grünewald, cujo nome se deve à vegetação atipicamente densa da região.

O palácio de caça (Jagdschloss Grünewald) visto de fora
Foto: Laura Ammann

A construção é de 1542-43 e, apesar de ter passado por reformas significativas ao longo dos séculos, ainda mantém a simplicidade cúbica dos palácios renascentistas. As janelas exibem o abaulamento característico da época, enquanto seu interior, talvez o mais preservado em Berlim, ostenta ainda uma sala com o típico teto-caixotão (em alemão, Kassettendecke). O padrão ornamentado, formado por quadrados consecutivos e herdeiro da arquitetura italiana, é restaurado, mas fiel à atmosfera do século 16.

O caminho que leva até o palácio dura cerca de 10 minutos a pé, mas pode ser percorrido de carro também
Foto: Laura Ammann

A cidade de Berlim era, quando da inauguração do palácio, restrita ao que é hoje o minúsculo centro da Ilha dos Museus. Naqueles tempos ela ainda se chamava Cölln e era lá que se encontrava o palácio real oficial, o antigo Stadtschloss, destruído completamente no século 20 pela ocupação soviética na Berlim Oriental. O caminho entre Cölln e o palácio de veraneio, que hoje se faz em poucos minutos através de uma rica rede de transporte público, era então, para Joaquim II e sua trupe, longo e possível somente a cavalo.

O caminho que leva até o palácio é povoado pelos moradores da região
Foto: Laura Ammann

Hoje protegido e mantido pela fundação prussiana de castelos e jardins, o antigo palácio serve de museu e exibe obras do renomado pintor alemão Lucas Cranach, o velho, que, em vida, trabalhava como pintor da corte, tanto de Joaquim II quanto do Habsburgo Maximiliano I. Entre as suas pinturas expostas no Jagdschloss Grünewald está a mais famosa de suas representações da história bíblica do Antigo Testamento de “Judith com a cabeça de Holofernes”.

A sala com atmosfera renascentista e teto-caixotão é uma das atrações do palácio
Foto: Laura Ammann

Lucas Cranach, o velho,
Adão e Eva, 1537
Foto: Laura Ammann

Além deste, outro quadro de um tema por diversas vezes trabalhado pelo pintor pode ser visto: o Julgamento de Páris. O episódio mitológico conta que o jovem Páris deve escolher entre Afrodite, Hera e Atena quem é a deusa mais bela. Cada uma das deusas oferece ao rapaz um presente em troca de ser a escolhida e Páris se decide por Afrodite, que lhe promete a mulher mais bela, Helena. O evento leva ao rapto de Helena, mulher do rei espartano Menelaus, e ao consequente início da Guerra de Troia.

Lucas Cranach, o velho
O Julgamento de Páris (detalhe), 1540-45
Foto: Laura Ammann

Outro ponto alto da exposição permanente é uma série com pinturas de grande porte retratando episódios da Paixão de Cristo. A aparente ingenuidade primitiva da pintura ao norte dos Alpes em comparação ao Renascimento Italiano, muito mais matemático e realista, precisa ser ultrapassada pelo observador, que encontra, assim, na obra de Cranach divertidos e minuciosos detalhes e uma força expressiva que justifica a fama do artista. Uma dica especial: identificar pela roupa e pelos rostos os repetidos personagens que aparecem nas diversas cenas.

Além do caráter artístico da visita ao Jagdschloss Grünewald, o próprio ambiente que envolve o palácio é uma atração especial: a natureza praticamente intacta da mata que abraça a construção, pela qual o visitante deve andar cerca de dez minutos para atingir o seu objetivo, culmina na margem do rio, que o castelo tomou emprestado como vista.

O palácio de caça (Jagdschloss Grünewald) visto de fora
Foto: Laura Ammann

Ao longo do caminho, sortudos moradores da região podem ser vistos passeando com seus cachorros (ironicamente de raças famosas pela habilidade predatória; talvez uma herança do local), enquanto vez ou outra um Biergarten surja com uma acalentadora oferta alcóolica.

A margem do rio, onde o palácio fica localizado
Foto: Laura Ammann

A trilha não é longa, nem de difícil acesso, mas parece ter parado no tempo e dá, com algum esforço imaginativo, uma noção do que teria sido percorrê-la há quatro séculos.

No jardim do Jagdschloss Grünewald eventualmente ocorrem concertos.
Vale a pena se informar
Foto: Laura Ammann

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.