Câmbio na Argentina: tudo o que você sempre quis saber

Dicas de Buenos Aires por Maria Marques

A Argentina tem um novo presidente eleito. Apesar de as perspectivas econômicas para o futuro serem melhores, o tema do câmbio na Argentina ainda é complexo e embaralha, mais que tudo, a cabeça dos turistas.

As dúvidas são muitas: “O que é o câmbio blue?”, “Onde troco dinheiro?”, “É melhor levar dólares ou reais?”; “Troco no Brasil ou deixo pra trocar na Argentina?”, “”É perigoso trocar na calle Florida?… Calma! Vou explicar em detalhes tudo o que você sempre quis saber sobre câmbio na Argentina, mas tinha medo de perguntar.

Pra começo de conversa, e para os leitores mais “vintage”, é só lembrar da década de 80 no Brasil. Quem queria viajar ao exterior normalmente tinha que procurar um doleiro pra trocar dinheiro e ficava sujeito à cotação do câmbio paralelo (que costumava ser distante da oficial).

A Argentina viveu até agora esse momento. Com as restrições cambiárias impostas pelo governo anterior, o acesso a dólares ficou difícil e fomentou a compra e venda de moeda estrangeira extraoficialmente – o chamado mercado blue – que cotiza a um valor diferente do câmbio oficial.

Não queira saber o que é passear na calle Florida com pinta de turista. Você vai escutar “câmbio, câmbio” a cada dois passos. Esse pessoal que fica ali na rua oferecendo câmbio são os conhecidos arbolitos (árvore, em espanhol). O papel deles é atrair o turista para trocar dinheiro e leva-lo à cueva (caverna, em espanhol). A cueva é a lojinha onde você troca o dinheiro.

Normalmente fica meio escondida dentro de uma galeria, sem placa, nem nada. Pode ser também nos fundos de um barzinho qualquer, onde você nunca imaginaria. A maioria das cuevas está na calle Florida e imediações, mas você vai achar muitas outras espalhadas desde os bairros mais coquetos (chiques) aos mais feiosos.

São tantos os jargões e códigos que parece que a gente está num filme de gangster, mas essa prática (infelizmente) é normal – apesar de ilegal. Inclusive, a polícia faz vista grossa para arbolitos e cuevas. Chegou-se a um nível que o governo não pode mais reprimir o câmbio blue ou o país quebraria de vez, afinal o blue é a cotação realista do câmbio. Parece piada, mas a cotação do blue aparece até nos jornais da Argentina.

Bom, feita essa pequena introdução, vamos às perguntas que assolam os turistas:

*Vale a pena trocar dinheiro pelo câmbio blue?

Se estamos falando em vantagem financeira unicamente, certamente vale. O dólar blue tem cotizado uns 50% a mais que o oficial. Nos últimos dias, por exemplo, você trocaria 1 dólar por aproximadamente 9,5 pesos pelo câmbio oficial e por 15 pesos no blue (as cotações variam diariamente). O real também tem sua cotação blue – a cotação oficial está em aproximadamente 2,5 pesos para cada real e, no blue, 3,9 pesos para cada real.

Agora, esse esquema tem seus riscos. Esse tipo de operação é comum, mas é ilegal, como já disse acima. Provavelmente você, turista normal trocando valores baixos, não vai ser preso porque foi pego dentro de uma cueva – não é assim! Mas você não tem garantias se algo sair mal como, por exemplo, se te derem notas falsas. Aí é sentar e chorar porque não dá pra recorrer a ninguém falando que você foi enganado.

Para ficar mais esperto sobre notas falsas, dê uma olhada nesta matéria do principal jornal daqui.

*Levo reais ou dólares para trocar na Argentina?

Aqui a questão é matemática. Como o real se desvalorizou em relação ao dólar nos últimos tempos, você tem que primeiro dar uma olhada na cotação dólar-real no Brasil, na sequência na cotação blue argentina e, depois, fazer uma continha para ver o que vale mais a pena. Por exemplo (valores estimados, só para demonstrar):

– Se você levar US$ 1,00 para trocar na Argentina, pelo câmbio blue, vai receber AR$ 15,00.

– Se você levar R$ 1,00 para trocar na Argentina, pelo câmbio blue, vai receber AR$ 3,90.

– Agora, se antes de viajar, no Brasil, você trocar esse mesmo R$ 1,00 por dólares, vai receber US$ 0,25. E esses US$0,25 trocados na Argentina, pelo blue, vão te dar AR$ 3,75.

Ou seja, no cenário acima, não está valendo trocar seus reais por dólares no Brasil e levar as verdinhas para trocar na Argentina. Lembre-se, entretanto, que as cotações variam diariamente e que o cenário acima pode dar um resultado inverso dependendo do dia.

Pra se informar sobre as cotações acima, você pode ver os seguintes sites:

– para as cotações oficiais do dólar e do peso em relação ao real, veja aqui.

– para as cotações do dólar blue e oficial na Argentina, veja aqui.

– para as cotações do real blue na Argentina, veja aqui.  Não é tão confiável como a publicação no jornal acima, mas dá para ter uma ideia.

*Posso pagar compras e restaurantes diretamente em dólar ou real?

Em geral, não. Contudo, alguns restaurantes e lojas bem turísticos (como aqueles localizados no Caminito) costumam aceitar moeda estrangeira. Táxis geralmente só aceitam pesos argentinos.

*E pagar tudo no cartão? Vale a pena?

Se você pensar só do lado financeiro da coisa, a resposta é não. Isso porque o câmbio utilizado pelos bancos é sempre o oficial. Portanto, a alternativa mais vantajosa do ponto de vista estritamente financeiro é trazer dinheiro em cash (sejam reais ou dólares) e trocar por pesos no câmbio blue.

Além disso, não se iluda. Na Argentina não é todo lugar que aceita cartão de débito e crédito. Essa coisa de até vendedor ambulante ter maquininha não se vê por aqui, não. Não é raro ver restaurantes que só aceitam efectivo (cash). E se pedir pra dividir a conta em mil cartões como fazemos no Brasil, pode esperar cara feia do garçom. Ah, e é sempre bom ter um pouco de dinheiro vivo para pagar a gorjeta, que não vem incluída na conta.

Claro que tem o inconveniente de ter que andar com um bolo de dinheiro na carteira, ainda mais porque numa tentativa desesperada de conter a inflação, a nota mais alta em circulação é a de AR$ 100,00, que hoje em dia compra dois cafés com medialunas e olhe lá. Fique esperto com batedores de carteira.

*Ok, entendi tudo, mas agora me fala uma cueva de confiança pra trocar no mercado blue.

Lamento muito, mas não ponho minha mão no fogo por nenhuma. A melhor coisa é, discretamente, perguntar no seu hotel. Normalmente eles têm recomendações por perto. Há também vários perfis no facebook de corretoras que operam no mercado blue para turistas, inclusive com serviço de delivery da plata (!). Numa rápida pesquisa no Google você vai encontrar. Conheço muita gente que já usou e nunca teve problema.

Um dado útil: existe uma espécie de cartelização das cuevas, portanto você não vai encontrar tanta variação de preço de uma para outra. Se você optar por trocar o dinheiro no blue, faça a lição de casa, veja os sites que eu indiquei acima, e vai na indicação que te derem.

E aqui vale a regra geral: quanto mais dinheiro você trocar, melhor a cotação. Se estiver viajando em turma, junte todo o dinheiro da galera pra trocar de uma vez só. Notas altas (de 50 e 100) são preferíveis. Deixe as moedinhas de penny que sobraram da última viagem aos EUA guardados de recordação.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Ufa, acho que é isso. Este post não tem o objetivo de incentivar ou estimular o mercado blue mas, sim, de dar todas as informações necessárias para que cada um, em sua sã consciência, possa fazer a escolha que quiser. Sinceramente, espero que num futuro próximo essas dicas percam sua utilidade e que a Argentina tenha uma moeda estável e única. Enquanto esse dia não chega, dá pra fazer nosso realzinho render um pouco mais nas viagens ao país hermano.

Maria é advogada com “lado B”. Adora uma novidade, descobrir lugares, passeios, músicas, comidas e o que mais tiver de legal por aí. Vive em Buenos Aires, cidade pela qual é apaixonada, e no Magari blu traz dicas para aproveitá-la como ninguém.